quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Primeira Morte de Florbela Espanca



A PRIMEIRA MORTE
de
FLORBELA ESPANCA

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO

Teatro
68 pág.
PVP: 7 E
ISBN: 978-972-8661-50-2

O drama inspira-se num dos percalços de saúde de Florbela, antes do acidente que a levou na noite de 7 de Dezembro de 1930. Mário Lage escrevia ao sogro, em 28 de Agosto de 1928, alarmado com a situação de Bela: Desde ontem pela manhã que está num estado de sonolência, sem falar e parece que sem ouvir.
O drama decorre sempre no mesmo cenário, o quarto de dormir na casa de Matosinhos, Rua 1 de Dezembro, onde Florbela viveu com o terceiro marido, o médico Mário Lage.
A edição original do texto é de 1999 (Quasi). Limparam-se para esta reedição algumas das muitas incorrecções de linguagem da edição original e apuraram-se falas, que mereciam tratamento mais desenvolvido.
A. C. F.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Dois poemas de LIRA, novo livro de Manuel Silva-Terra

1.

O livro-errante bate às portas do ente. Abandonado num quarto de hotel, esquecido no banco do comboio, perdido no aeroporto. Desperta e rejubila com o bafo dos passageiros. Abandonado esquecido perdido. Achado e reencontrado. Tornado imóvel, comprimido numa pilha com outros seres semelhantes. Resgatado do pó da biblioteca. No outono perdido no bosque e na primavera seguinte recuperado do gelo das folhas e do estrume. Todo ele estremece com a passagem das estações sobre a erva. Todo ele vibra com a passagem do tempo sobre a Terra. Sebento e sujo. Mendigo nos caminhos dos homens. Jazente, renova-se ao contacto com outro ser, se também ele errante e fragmentado. Ambos se recolhem um no outro, de si desapossados. Inquietos como dois amantes inexperientes. Deste encontro fazem revelação. O livro-errante é o livro-leitor-feliz. Ambos conhecem a lentidão amorosa, o suspiro na queda e a perda. Ambos caem com volúpia.



2.


O livro-cobra vai largando a pele pelos lugares e mãos de passagem, enrosca-se nos braços do leitor que o lê por comunicação táctil. O livro-cobra muda de pele e o leitor é renovado. Pele contra pele. Por osmose um mesmo tecido nasce da morte do anterior. Mas o livro-cobra hiberna, e enquanto hiberna enrosca-se nos buracos da memória, nos interstícios da matéria negra, até novo solstício – só então renasce. O leitor eterno vive no plano infinito que este livro desenrola. Ou o livro nos infinitos planos da temporalidade do leitor?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dois poemas de TERRA PROMETIDA, de Joel Henriques

MÃO NO OMBRO


Quando a ausência
dominava as ruas que habitávamos,
alguém ofereceu
o seu nada contristado.

Quando os caminhos da encruzilhada
prometiam o desespero,
alguém concedeu
a sua companhia inviável.

Quando a única resposta à tristeza
era outra tristeza,
alguém dispensou um lenço,
poucas lágrimas.

Os pássaros cantavam,
a natureza dava o melhor de si,
mas todos pensaram que era indiferença –
sentiram-se deuses abandonados.





REENCONTRO


Partiste há muito tempo,
quando voltaste não te reconheci.
As crianças que brincaram,
quase ausentes,
pertencem a outras circunstâncias.

Só num aspecto ficaste próximo:
não foi a memória
ou o instante que permanece,
apenas um horizonte que nunca vi
e acende o brilho antigo a norte.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Dois Poemas de PROTECÇÃO DAS SÍLABAS, de José Luis Puerto

OS BÁRBAROS

Hoy llegan los bárbaros

CONSTANTINO CAVAFIS



Que bom, se viessem os bárbaros,
Quanta desordem trariam
Quanta vida nas suas garupas,
Quanto perfume novo
Para arejar as velhas convenções.
Partiria aborrecido o tédio
Com sua amada rotina
Para outro reino, bem longe…
Os tribunais e as magistraturas
(Tanto palácio estéril
Entre nós)
Se esconderiam lívidos
Perante o galope vital dos bárbaros,
Não cresceria a erva do nosso aborrecimento
Debaixo das suas ferraduras
Nem a hipocrisia reinaria nos rostos
De tantos transeuntes.
Que bom, se viessem os bárbaros.
Mas o campo é estéril,
Não se avista a poeira das hostes
Nem se ouvem os seus galopes.
Dizem que já não há bárbaros,
Que pena…


(Paisage de invierno, 1993)




Bater de relógios
Perfurada a harmonia
Deste instante perfeito em que a pluma
Desliza em galope pela intacta
Planura e a convida
Para o mágico festim das palavras.



(El tiempo que nos teje, 1982)

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